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O que o mercado diz que quer, e o que ainda não está a dar

Há anos que ouvimos a mesma conversa:
a profissão administrativa está a mudar. Vai tornar-se mais estratégica. Mais valorizada. Mais reconhecida.

As ferramentas evoluem. O discurso moderniza-se. As palavras certas aparecem: impacto, eficiência, pensamento analítico, automação, inteligência artificial.

Mas, no terreno, muitas profissionais continuam a viver a mesma realidade: muito trabalho, muita responsabilidade e pouco lugar na decisão.

Falei com a Catarina Palhinha, profissional de Recursos Humanos, para perceber como o mercado vê hoje as funções administrativas, o que está realmente a ser pedido, e o que continua a faltar mudar.

Esta conversa confirmou uma coisa importante: o problema já não é a falta de competências. É a falta de posição.

O que o mercado passou a exigir

Do ponto de vista técnico, a fasquia subiu e isso é inegável.

Hoje espera-se que uma profissional administrativa domine ferramentas digitais, plataformas de produtividade, sistemas de gestão documental, e comece a lidar com automação e inteligência artificial como parte do dia a dia.

Segundo a Catarina, aquilo que antes era um “extra” passou a ser básico:

o domínio de ferramentas digitais, a capacidade de adaptação e a autonomia tecnológica já não são diferenciais, são pré-requisitos.

Ao mesmo tempo, as chamadas competências comportamentais tornaram-se centrais: comunicação, inteligência emocional, capacidade de resolver problemas, adaptabilidade.

O discurso é claro: quer-se profissionais mais completas, mais autónomas, mais maduras.

E, no papel, isso parece uma excelente notícia.

A promessa: libertar tempo para o que é estratégico

Também aqui o discurso é bonito.

A inteligência artificial, a automação e as novas ferramentas deveriam libertar estas profissionais das tarefas repetitivas para que possam assumir funções mais analíticas, de gestão de processos, de organização estratégica e de apoio à decisão.

Nas palavras da Catarina:

o papel não desaparece, transforma-se. Torna-se mais consultivo, mais estratégico, mais próximo do funcionamento real da empresa.

Em teoria, estamos a caminhar para um lugar melhor.

Na prática… nem sempre.

O ponto cego: competência não é o mesmo que posição

Aqui é que a conversa fica mais interessante.

Porque quando se fala de progressão, reconhecimento e carreira, aparece sempre o mesmo padrão:

  • pede-se mais
  • exige-se mais
  • espera-se mais

Mas a estrutura continua a ser a mesma.

A própria Catarina reconhece que muitos destes profissionais continuam a ser vistos sobretudo como “apoio”, mesmo quando o seu impacto é claramente estrutural.

E isso vê-se em coisas muito concretas:

  • na dificuldade em evoluir para outras áreas
  • na forma como os salários estagnam
  • na necessidade constante de “provar” valor
  • e na luta para serem incluídos em decisões que já sustentam todos os dias

É por isso que, mesmo com CV’s fortes, experiência sólida e competências atualizadas, tantas profissionais sentem que estão sempre a correr atrás de um reconhecimento que nunca chega por completo.

Carreira não se faz só com esforço

A parte da conversa sobre currículos, entrevistas e negociação salarial é muito clara e muito pragmática.

É importante:

  • saber mostrar impacto
  • saber falar de resultados
  • saber preparar uma conversa de progressão
  • saber negociar

Mas há uma verdade mais desconfortável por trás disto:

nenhuma estratégia individual compensa durante muito tempo uma posição estrutural fraca.

Podes ser excelente.
Podes ser indispensável.
Podes ser altamente competente.

E mesmo assim… ficar parada.

Não por falta de valor.
Mas por falta de lugar.

O que esta conversa nos mostra, afinal?

Mostra que o mercado já sabe o que quer destas profissionais.

Quer:

  • mais técnica
  • mais maturidade
  • mais responsabilidade
  • mais pensamento

Mas ainda não reorganizou verdadeiramente o lugar que elas ocupam.

E enquanto não reorganizar, vai continuar a acontecer isto:

pessoas cada vez mais preparadas em funções estruturalmente subalternizadas.

Talvez a próxima etapa não seja aprender mais

Talvez seja ocupar melhor o espaço.

Talvez o próximo passo da profissão não seja só:

  • mais cursos
  • mais ferramentas
  • mais competências

Mas:

  • mais posição
  • mais voz
  • mais presença
  • mais consciência coletiva

Esta conversa não fecha o tema.
Mas ajuda a torná-lo mais claro.

E, às vezes, é isso que começa a mudar tudo.

Fica a pergunta:

Se o mercado já espera mais das profissionais administrativas, quando começará também a reconhecer-lhes um lugar diferente?

Quero saber a tua opinião.

Se este tema te fez pensar, podes partilhar este artigo com outra profissional que também viva esta realidade.

1 comentário em “O que o mercado diz que quer, e o que ainda não está a dar”

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