Há um erro silencioso, que muitas profissionais cometem, e que não aparece em nenhuma avaliação de desempenho: confundir servir com submeter.
Servir faz parte da nossa função. Estamos aqui para apoiar, facilitar, organizar, antecipar. Para tornar possível o trabalho dos outros. Para fazer acontecer. Isso é profissionalismo.
Submeter é outra coisa.
Submeter é quando começamos a aceitar tudo como normal. Quando deixamos de questionar pedidos mal pensados. Quando engolimos decisões absurdas porque “não vale a pena discutir”. Quando assumimos culpas que não são nossas. Quando resolvemos problemas que não criámos e, ainda pedimos desculpa por existir.
A fronteira entre uma coisa e outra não é óbvia. E talvez por isso tantas de nós a atravessem sem dar conta.
Começa pequeno.
Um e-mail que podia ser escrito por quem o pede, mas vem parar à nossa secretária. Uma urgência que afinal era só má organização de alguém. Uma reunião marcada em cima da hora, que desorganiza o teu dia inteiro, mas que aceitas sem dizer nada. Um “podes tratar disto?” que, na verdade, significa “desenrasca-me”.
E nós tratamos. Sempre tratámos.
Porque somos competentes. Porque gostamos de resolver. Porque sabemos fazer acontecer.
Mas há um momento em que já não estamos a servir uma função. Estamos a sustentar um sistema desorganizado. E pior: estamos a desaparecer dentro dele.
Servir é usar o teu critério profissional para ajudar a empresa a funcionar melhor.
Submeter é abdicar desse critério para manter a paz, evitar conflitos ou continuar a ser “a pessoa impecável”.
O problema é que o preço disso é alto.
Quando te habituas a engolir, a ceder, a absorver tudo, o teu papel vai-se tornando cada vez mais invisível. Não porque não trabalhas. Mas porque deixas de ocupar espaço como profissional pensante.
Passas a ser vista como “a que resolve”, mas raramente como “a que pensa”.
E isso é perigoso para a carreira.
Porque mais cedo ou mais tarde, ficas cansada. E ninguém percebe porquê. Afinal, “tu sempre fizeste tudo”.
Há um momento, discreto, mas decisivo, em que uma profissional precisa de reaprender a dizer:
“Posso ajudar. Mas não assim.”
“Isto não faz sentido dessa forma.”
“Vamos organizar isto melhor.”
Isso não é falta de espírito de equipa.
É maturidade profissional.
Servir não é anular-se.
Apoiar não é desaparecer.
Ser competente não é ser absorvida.
A linha é fina. Mas existe.
E atravessá-la todos os dias, sem dar por isso, é um dos maiores sabotadores silenciosos de uma carreira administrativa.
Talvez esta reflexão te tenha feito pensar na forma como estás a viver o teu trabalho.
Se quiseres, deixa-me a tua perspetiva nos comentários. Gosto de saber como estas questões são vividas por outras profissionais.
