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Quando uma profissão tem nome e quando vive na sombra

Uma conversa sobre identidade, estrutura e invisibilidade no secretariado, a partir de dois países

Há conversas que não servem apenas para trocar experiências. Servem para confirmar intuições.

A conversa que tive com a Kelma Maia, profissional de secretariado, brasileira a viver em Portugal, foi uma dessas. Não porque tenhamos descoberto algo radicalmente novo, mas porque ficou mais claro aquilo que muitas de nós já sentem há muito tempo: o problema do secretariado não é de competência. É de lugar. É de identidade.

Falámos de duas realidades diferentes. No Brasil, a profissão existe formalmente: é regulamentada, tem enquadramento legal, tem código de ética e tem nome. Em Portugal, como sabemos, a realidade é outra. O trabalho administrativo vive espalhado por títulos vagos, funções difusas e expectativas que mudam conforme a empresa, ou a pessoa que manda.

É verdade que em Portugal existe a ASP – Associação Portuguesa de Profissionais de Secretariado e Assessoria, que há décadas representa a profissão, promove eventos, encontros e tem até um Código Deontológico que orienta princípios éticos e de conduta. Isso é importante. É valioso. É estrutura.

Mas também é verdade que a existência de uma associação e de um código interno não é o mesmo que a profissão ter um lugar claro, reconhecido e assumido no mercado de trabalho e na cultura organizacional. A profissão continua, na prática, muito dependente da boa vontade, da competência individual e da capacidade de cada uma se ir impondo pelo trabalho.

E esta diferença muda tudo.

Quando uma profissão tem nome, tem também limites, linguagem, contornos e espaço próprio. Quando não tem, acontece o que tantas de nós conhecem: fazemos de tudo, sabemos de tudo, seguramos tudo, mas raramente ocupamos um lugar claro.

A Kelma contou-me que no Brasil a formação específica em secretariado é valorizada e, muitas vezes, exigida. Em Portugal, vemos o contrário: para muitas funções basta “dar uns toques no computador” e falar línguas. Como se organizar, antecipar, gerir informação, processos e pessoas fosse apenas uma soma de tarefas e não uma função com pensamento próprio.

E depois há a cultura.

No Brasil, segundo a Kelma, há mais encontros, congressos, partilha e comunidade profissional. Em Portugal, há mais silêncio. Mais cada uma no seu canto. Mais receio de “dar ideias”, de “se expor”, de “perder lugar”. Mesmo existindo iniciativas e associações, a cultura dominante continua a ser a da discrição excessiva e da invisibilidade confortável, que, a longo prazo, sai cara à profissão.

Falámos também da exigência crescente: línguas, ferramentas, sistemas, adaptação constante. O nível de sofisticação do trabalho aumentou imenso. Mas a perceção do papel… nem sempre acompanhou.

E talvez aqui esteja um dos nós centrais: quanto mais fazemos, mais nos tornamos invisíveis. Quanto mais resolvemos, menos somos nomeadas.

A certa altura, a Kelma disse algo que é quase um mantra da profissão: “O que nos une é a vontade de servir.” E é verdade. Mas talvez esteja na hora de fazermos uma pergunta desconfortável: será que esta identidade de “servir” não nos colocou, muitas vezes, num lugar pequeno demais?

Servir não é submeter. Apoiar não é desaparecer. Sustentar não é anular-se.

Esta conversa não foi sobre Brasil versus Portugal. Foi sobre o que acontece quando uma profissão tem estrutura e quando vive sobretudo do esforço individual de quem a exerce.

E confirmou-me uma coisa: o secretariado não precisa de provar que é útil. Precisa de ocupar um lugar.

E tu, como vês esta questão?

Achas que o maior desafio da profissão de secretariado está hoje nas competências que ainda precisamos de desenvolver, ou no lugar que a profissão ainda precisa de conquistar?

Gostava muito de conhecer a tua perspetiva.

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